Acreditar que a filosofia poderia ser
uma criação heterossexual é como acreditar que um banqueiro possa criar
um “banco social” ou que o capitalismo possa deixar de explorar o homem
ou que um coelho possa preferir antes pernil que cenoura.
Mas há pessoas que acreditam que um
coelho é antes de tudo o Pernalonga, aquele que anda com uma cenoura na
boca e que pode, como prêmio máximo, preferir pernil. Há quem não
consiga entender que Pernalonga não é uma ficção qualquer, mas uma
determinada, a da projeção de um tipo de homem sobre um coelho. Há uma
série de situações, pessoas, acontecimentos e coisas que uma vez
despojadas de certos elementos não possuem a mínima condição de poderem
receber o mesmo nome que tinham. Mas, por uma operação ideológica
profunda, a do mecanismo de projeção, isso acaba ocorrendo. Assim foi
com a filosofia.
A filosofia é gay, mas no mundo moderno
burguês isso não podia ser dito. Ainda não pode. Nesse caso a ideologia
foi chamada para fazer seu serviço de sempre: mostrar tudo de modo que
tudo efetivamente seja visto e nada enxergado.
Por anos e anos não entendemos que a
heterossexualidade como um dado natural é uma ficção até meio tola e,
por isso, não compreendemos que o homoerotismo poderia produzir – como
de fato produziu – algo que almeja ser o suprassumo dos feitos dos
bípedes-sem-penas (para lembrar a expressão imputada a Platão). A
filosofia seria um polo culminante da cultura humana e, sendo o
homoerotismo algo do desvio humano, ele não poderia ter criado a
filosofia ou, se a criou, não poderia ter deixado nela marcas centrais.
Todavia, foi sim o homoerotismo que criou a filosofia e, sem ele, a
filosofia é tudo menos filosofia.
Claro que estou falando aqui da
filosofia em seu sentido por nós adotado hoje, ou seja, o do
envolvimento sério com as narrativas de Platão. A filosofia narrada e
praticada por Platão tem uma dívida para com a sua brilhante
inteligência e para com a prática da pederastia invertida tentada por
Sócrates. Foi da perspectiva e da práxis homoerótica que se inventou a
tal de filosofia.
A sociedade com valores calçados por um
Eros objetivo, figurado efetivamente como um deus e um demiurgo, e por
um campo de práticas, visões, odores e percepções completamente
masculinas criou a filosofia. Sócrates foi o inventor dessa maluquice do
“conhece-te a ti mesmo” transformado em guia da investigação
filosófica. Esse conhecer-se nunca veio à prática filosófica senão na
teia de relações de homens que amavam homens enquanto homens, não
enquanto deuses, animais, monstros, mulheres ou crianças. Homens
másculos com efebos – essa amizade e amor criados como instituição
cultural e educacional de Atenas, segundo suas particularidades, é que
fez a pergunta de Sócrates posta no “conhece-te a ti mesmo” ganhar
sentido. Mulheres, animais, deuses e monstros sabiam o seu lugar exato
no mundo. Só o homem másculo, o homem efetivamente homem e que, por ser
másculo, gosta de homens, tinha problemas em saber sobre sua posição e
saber se estava mesmo no lugar certo. Ao querer confirmar isso, buscando
o “conhece-te a ti mesmo”, esses homens criaram a filosofia. Sócrates
foi o melhor intérprete desse desejo, e o fez não no exercício da
pederastia comum, mas de sua prática invertida.
A pederastia foi a única instituição no
Ocidente que deu certo quanto à tarefa de criar adolescentes em uma
sociedade livre. Nem antes e nem depois de Atenas isso se fez com
acerto. A prática do homem mais velho de dar espaço social para um mais
jovem, cuidando dele, foi a única maneira que o Ocidente descobriu como
um modo capaz de educar adolescentes. Mutatis mutandis é o que
fazemos hoje, ainda que sob mil disfarces, e com os adereços vindos da
abertura do mundo para as mulheres. Se não tivéssemos isso, ainda que
agora sob mil capas hipócritas, não teríamos nem socialização nem
criatividade. Sócrates seguiu tal prática, mas em determinado momento a
inverteu e, nisso, fez a filosofia acontecer.
Ao invés de se colocar como o mais velho
que se torna amante do efebo, Sócrates fez o efebo ter curiosidade por
ele, por sua vida adulta, pela sua pergunta sobre o “conhece-te a ti
mesmo”, e então cair de amores. Sócrates foi acusado de corromper a
juventude e, nisso, a acusação acertou. Os jovens não deviam ser
apaixonar pelo mais velho na pederastia e não deviam canalizar seus
esforços e impulsos, inclusive sexuais, para o “conhece-te a ti mesmo”
como uma obsessão. Sócrates é que criou essa virada. Sócrates subverteu o
homoerotismo dessa instituição educacional sortuda, a pederastia. Essa
virada gerou a filosofia como Platão a re-inventou em suas narrativas,
fazendo de Sócrates um personagem, o mestre da ta erotika, a expressão que aglutinava o sentido de arte de fazer perguntas e arte do amor – o que hoje chamamos de o bom namoro.
Sócrates quis deixar marcado na
pederastia o quanto ela havia criado a filosofia, mas na sua inversão.
Ele quis mostrar que vivendo em uma sociedade completamente masculina, a
sua própria formação como filósofo não havia vindo de homens. Ela não
era comum! Todos os mestres que ele reconheceu foram mulheres – reais ou
talvez fictícias. Com isso, deixou claro que era uma pessoa diferente,
que o que fazia era diferente de outros que se diziam ou sofistas ou
mesmo filósofos. Mas com isso também mostrou que para ir mais fundo na
filosofia era necessário ter uma visão mais ampla que a de uma sociedade
centrada em uma só perspectiva. Só o masculinismo não bastava. Era
necessário, para ver segredos do intelecto, percorrer o mundo das
mulheres (sua mãe, Xantipa sua esposa, Aspásia sua professora de
dialética e, por fim, a sábia da Mantinea). Ele havia feito isso e,
então, poderia criar algo novo em Atenas. Mas isso só foi possível de
ser uma novidade e de gerar algo novo, a filosofia, porque o pano de
fundo era homoerótico. Caso não fosse, nenhuma dessas ideias teria tido
sentido. Seria tolice falar formação vinda de mulheres em um mundo onde
isso não fosse algo estranhíssimo. Sem essa trama talvez o pensamento
grego tivesse gerado, como gerou, a cosmologia dos pré-socráticos, que
virou física, ou o jogo de retórica dos sofistas, que virou o ensino
para a democracia e, enfim, a arte de transformar tudo em questão de
discurso público e voto.
No mundo masculino e de amores
predominantemente masculinos, que era aquele chamado de cultural, pois
livre da escravidão da natureza e do destino animal da qual a mulher era
a representante máxima por que gerava uma cria, Sócrates trouxe um
saber diferente: o homem não deixa de ser melhor por ficar louco de
amor. O jovem pode se apaixonar sim pelo homem mais velho. Não é só o
mais velho que, sendo mais velho e tendo juízo, pode se apaixonar pelo
mais novo. O mais novo pode aprender a ter juízo nessa relação e sua
prudência, a sofrosine, que é uma virtude espetacular, pode
muito bem ser aprendida nessas circunstâncias. Ora, então aí entra a
filosofia, exatamente na pederastia invertida. Ela ensina a
automoderação do jovem sem que ele precise, eternamente, do policiamento
do escravo pedagogo. Ela ensina também a responder, no namoro (a arte
erótica na qual Sócrates dizia ser doutor), sobre quem se é e quem se
deseja ser enquanto homem livre. Respondendo a perguntas do tipo “O que é
a Coragem?” ou “o que é o Beleza?” o jovem, junto com o filósofo,
poderia tentar então ter nas mãos o que precisaria para depois dizer se
ele mesmo seria um corajoso ou um belo. Nesse sentido, enquanto homem
livre ele aprendia a dizer de si mesmo verdades ocupando na sociedade de
homens livres um lugar autêntico. Esse era o objetivo da filosofia.
Quando praticada na sua autenticidade, ainda a filosofia é isso. Ela em
um sentido amplo está a serviço da pergunta de Peter Slotedijk: “onde se
está quando se está no mundo?”
Tudo isso envolvia, também, um
pavonear-se completamente masculino, de exposição de homens para homens.
Mas tudo isso envolvia também uma percepção da hybris enquanto
um excesso grego, que precisava ser mais bem ponderado. Nenhum grego
conheceu o qualificativo “humilde”. Mas o grego, com a filosofia,
conheceu algo como “saber a qual lugar se pertence o que fazer para
ocupa-lo”. Isto é, há algum conhecimento de si enquanto uma pessoa cujo
“si” são sua qualidades exteriorizadas e, não raro, as tituladas pela
cidade. Ter esse conhecimento do lugar é o prêmio da filosofia
para quem se envolve com ela. Afinal, nunca o “conhece-te a ti mesmo”
foi uma autorreflexão no sentido cartesiano e muito menos uma
investigação no sentido psicanalítico. Sempre foi uma pergunta que
queria dar ao homoerotismo tudo que este poderia fornecer ao homem.
Nietzsche percebeu bem isso e expressou tal coisa na fórmula “torna-te o
que tu és”. Alcibíades queria ser o que deveria ser, um estadista, e
Sócrates filosofou com ele de modo que ele pudesse assim ser. Ambos se
frustraram! Mas isso nunca quis dizer que Sócrates fracassou em tudo.
Conseguiu seu intento, talvez sem notar, com Platão. E que feito!
A filosofia nasceu gay e só nessa
relação homoerótica faz sentido. Fora dela é mero pastiche. Os padres
que herdaram o saber grego sempre tiveram isso como algo claro, e assim
levaram adiante os seminários. Eles foram exímios na prática da
autêntica filiação entre homens, jovens e mais velhos, em uma confraria.
A Universidade Medieval herdou tais práticas. No seu início a
modernidade manteve essa prática assim ao instituir as relações entre
mestre e discípulo e nas regras do mecenato. Por usa vez, as escolas
modernas tardias foram obrigadas a quebrar isso, após a moralização do
mundo pela burguesia idólatra do trabalho. Só então, com a revolução
industrial e com o burguês tendo desejado criar um mundo sem amor e sem
sexo, de modo a favorecer a disciplina fabril e o culto do deus
Dinheiro, é que a filosofia se descaracterizou e, tornando-se prática
asséptica de sala de aula virou prática de professores de filosofia – os
que não podem olhar mais o estudante com olhos carinhosos.
Toda relação filosófica hoje é feita nas
catacumbas da consciência arredia nos espaços dos corredores de
universidades que ainda podem se parecer mosteiros, onde a sensualidade
entre pessoas (e aí já não mais importa o gênero) come solta, ou melhor,
quase solta. Agora, que até mesmo a boemia não existe entre filósofos,
tudo se completa de modo a não reconhecermos mais a filosofia como
inerentemente um saber gay. Só quando todos nós pudermos ver que o gay é
o elemento comum e o hétero uma ficção e que então aceitaremos ver a
filosofia, de volta, como sendo gay. Por enquanto esse saber é crivado
por ideologia, porque nós próprios, cada um de nós que se diz hétero,
nega tudo, até mesmo sonhos incontáveis.
Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.
Fonte: http://ghiraldelli.pro.br/filosofia-e-gay/
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