quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A filosofia é gay

Acreditar que a filosofia poderia ser uma criação heterossexual é como acreditar que um banqueiro possa criar um “banco social” ou que o capitalismo possa deixar de explorar o homem ou que um coelho possa preferir antes pernil que cenoura.
Mas há pessoas que acreditam que um coelho é antes de tudo o Pernalonga, aquele que anda com uma cenoura na boca e que pode, como prêmio máximo, preferir pernil. Há quem não consiga entender que Pernalonga não é uma ficção qualquer, mas uma determinada, a da projeção de um tipo de homem sobre um coelho. Há uma série de situações, pessoas, acontecimentos e coisas que uma vez despojadas de certos elementos não possuem a mínima condição de poderem receber o mesmo nome que tinham. Mas, por uma operação ideológica profunda, a do mecanismo de projeção, isso acaba ocorrendo. Assim foi com a filosofia.
A filosofia é gay, mas no mundo moderno burguês isso não podia ser dito. Ainda não pode. Nesse caso a ideologia foi chamada para fazer seu serviço de sempre: mostrar tudo de modo que tudo efetivamente seja visto e nada enxergado.
Por anos e anos não entendemos que a heterossexualidade como um dado natural é uma ficção até meio tola e, por isso, não compreendemos que o homoerotismo poderia produzir – como de fato produziu – algo que almeja ser o suprassumo dos feitos dos bípedes-sem-penas (para lembrar a expressão imputada a Platão). A filosofia seria um polo culminante da cultura humana e, sendo o homoerotismo algo do desvio humano, ele não poderia ter criado a filosofia ou, se a criou, não poderia ter deixado nela marcas centrais. Todavia, foi sim o homoerotismo que criou a filosofia e, sem ele, a filosofia é tudo menos filosofia.
Claro que estou falando aqui da filosofia em seu sentido por nós adotado hoje, ou seja, o do envolvimento sério com as narrativas de Platão. A filosofia narrada e praticada por Platão tem uma dívida para com a sua brilhante inteligência e para com a prática da pederastia invertida tentada por Sócrates. Foi da perspectiva e da práxis homoerótica que se inventou a tal de filosofia.
A sociedade com valores calçados por um Eros objetivo, figurado efetivamente como um deus e um demiurgo, e por um campo de práticas, visões, odores e percepções completamente masculinas criou a filosofia. Sócrates foi o inventor dessa maluquice do “conhece-te a ti mesmo” transformado em guia da investigação filosófica. Esse conhecer-se nunca veio à prática filosófica senão na teia de relações de homens que amavam homens enquanto homens, não enquanto deuses, animais, monstros, mulheres ou crianças. Homens másculos com efebos – essa amizade e amor criados como instituição cultural e educacional de Atenas, segundo suas particularidades, é que fez a pergunta de Sócrates posta no “conhece-te a ti mesmo” ganhar sentido. Mulheres, animais, deuses e monstros sabiam o seu lugar exato no mundo. Só o homem másculo, o homem efetivamente homem e que, por ser másculo, gosta de homens, tinha problemas em saber sobre sua posição e saber se estava mesmo no lugar certo. Ao querer confirmar isso, buscando o “conhece-te a ti mesmo”, esses homens criaram a filosofia. Sócrates foi o melhor intérprete desse desejo, e o fez não no exercício da pederastia comum, mas de sua prática invertida.
A pederastia foi a única instituição no Ocidente que deu certo quanto à tarefa de criar adolescentes em uma sociedade livre. Nem antes e nem depois de Atenas isso se fez com acerto. A prática do homem mais velho de dar espaço social para um mais jovem, cuidando dele, foi a única maneira que o Ocidente descobriu como um modo capaz de educar adolescentes. Mutatis mutandis é o que fazemos hoje, ainda que sob mil disfarces, e com os adereços vindos da abertura do mundo para as mulheres. Se não tivéssemos isso, ainda que agora sob mil capas hipócritas, não teríamos nem socialização nem criatividade. Sócrates seguiu tal prática, mas em determinado momento a inverteu e, nisso, fez a filosofia acontecer.
Ao invés de se colocar como o mais velho que se torna amante do efebo, Sócrates fez o efebo ter curiosidade por ele, por sua vida adulta, pela sua pergunta sobre o “conhece-te a ti mesmo”, e então cair de amores. Sócrates foi acusado de corromper a juventude e, nisso, a acusação acertou. Os jovens não deviam ser apaixonar pelo mais velho na pederastia e não deviam canalizar seus esforços e impulsos, inclusive sexuais, para o “conhece-te a ti mesmo” como uma obsessão. Sócrates é que criou essa virada. Sócrates subverteu o homoerotismo dessa instituição educacional sortuda, a pederastia. Essa virada gerou a filosofia como Platão a re-inventou em suas narrativas, fazendo de Sócrates um personagem, o mestre da ta erotika, a expressão que aglutinava o sentido de arte de fazer perguntas e arte do amor – o que hoje chamamos de o bom namoro.
Sócrates quis deixar marcado na pederastia o quanto ela havia criado a filosofia, mas na sua inversão. Ele quis mostrar que vivendo em uma sociedade completamente masculina, a sua própria formação como filósofo não havia vindo de homens. Ela não era comum! Todos os mestres que ele reconheceu foram mulheres – reais ou talvez fictícias. Com isso, deixou claro que era uma pessoa diferente, que o que fazia era diferente de outros que se diziam ou sofistas ou mesmo filósofos. Mas com isso também mostrou que para ir mais fundo na filosofia era necessário ter uma visão mais ampla que a de uma sociedade centrada em uma só perspectiva. Só o masculinismo não bastava. Era necessário, para ver segredos do intelecto, percorrer o mundo das mulheres (sua mãe, Xantipa sua esposa, Aspásia sua professora de dialética e, por fim, a sábia da Mantinea). Ele havia feito isso e, então, poderia criar algo novo em Atenas. Mas isso só foi possível de ser uma novidade e de gerar algo novo, a filosofia, porque o pano de fundo era homoerótico. Caso não fosse, nenhuma dessas ideias teria tido sentido. Seria tolice falar formação vinda de mulheres em um mundo onde isso não fosse algo estranhíssimo. Sem essa trama talvez o pensamento grego tivesse gerado, como gerou, a cosmologia dos pré-socráticos, que virou física, ou o jogo de retórica dos sofistas, que virou o ensino para a democracia e, enfim, a arte de transformar tudo em questão de discurso público e voto.
No mundo masculino e de amores predominantemente masculinos, que era aquele chamado de cultural, pois livre da escravidão da natureza e do destino animal da qual a mulher era a representante máxima por que gerava uma cria, Sócrates trouxe um saber diferente: o homem não deixa de ser melhor por ficar louco de amor. O jovem pode se apaixonar sim pelo homem mais velho. Não é só o mais velho que, sendo mais velho e tendo juízo, pode se apaixonar pelo mais novo. O mais novo pode aprender a ter juízo nessa relação e sua prudência, a sofrosine, que é uma virtude espetacular, pode muito bem ser aprendida nessas circunstâncias. Ora, então aí entra a filosofia, exatamente na pederastia invertida. Ela ensina a automoderação do jovem sem que ele precise, eternamente, do policiamento do escravo pedagogo. Ela ensina também a responder, no namoro (a arte erótica na qual Sócrates dizia ser doutor), sobre quem se é e quem se deseja ser enquanto homem livre. Respondendo a perguntas do tipo “O que é a Coragem?” ou “o que é o Beleza?” o jovem, junto com o filósofo, poderia tentar então ter nas mãos o que precisaria para depois dizer se ele mesmo seria um corajoso ou um belo. Nesse sentido, enquanto homem livre ele aprendia a dizer de si mesmo verdades ocupando na sociedade de homens livres um lugar autêntico. Esse era o objetivo da filosofia. Quando praticada na sua autenticidade, ainda a filosofia é isso. Ela em um sentido amplo está a serviço da pergunta de Peter Slotedijk: “onde se está quando se está no mundo?”
Tudo isso envolvia, também, um pavonear-se completamente masculino, de exposição de homens para homens. Mas tudo isso envolvia também uma percepção da hybris enquanto um excesso grego, que precisava ser mais bem ponderado. Nenhum grego conheceu o qualificativo “humilde”. Mas o grego, com a filosofia, conheceu algo como “saber a qual lugar se pertence o que fazer para ocupa-lo”. Isto é, há algum conhecimento de si enquanto uma pessoa cujo “si” são sua qualidades exteriorizadas e, não raro, as tituladas pela cidade. Ter esse conhecimento do lugar é o prêmio da filosofia para quem se envolve com ela. Afinal, nunca o “conhece-te a ti mesmo” foi uma autorreflexão no sentido cartesiano e muito menos uma investigação no sentido psicanalítico. Sempre foi uma pergunta que queria dar ao homoerotismo tudo que este poderia fornecer ao homem. Nietzsche percebeu bem isso e expressou tal coisa na fórmula “torna-te o que tu és”. Alcibíades queria ser o que deveria ser, um estadista, e Sócrates filosofou com ele de modo que ele pudesse assim ser. Ambos se frustraram! Mas isso nunca quis dizer que Sócrates fracassou em tudo. Conseguiu seu intento, talvez sem notar, com Platão. E que feito!
A filosofia nasceu gay e só nessa relação homoerótica faz sentido. Fora dela é mero pastiche. Os padres que herdaram o saber grego sempre tiveram isso como algo claro, e assim levaram adiante os seminários. Eles foram exímios na prática da autêntica filiação entre homens, jovens e mais velhos, em uma confraria. A Universidade Medieval herdou tais práticas. No seu início a modernidade manteve essa prática assim ao instituir as relações entre mestre e discípulo e nas regras do mecenato. Por usa vez, as escolas modernas tardias foram obrigadas a quebrar isso, após a moralização do mundo pela burguesia idólatra do trabalho. Só então, com a revolução industrial e com o burguês tendo desejado criar um mundo sem amor e sem sexo, de modo a favorecer a disciplina fabril e o culto do deus Dinheiro, é que a filosofia se descaracterizou e, tornando-se prática asséptica de sala de aula virou prática de professores de filosofia – os que não podem olhar mais o estudante com olhos carinhosos.
Toda relação filosófica hoje é feita nas catacumbas da consciência arredia nos espaços dos corredores de universidades que ainda podem se parecer mosteiros, onde a sensualidade entre pessoas (e aí já não mais importa o gênero) come solta, ou melhor, quase solta. Agora, que até mesmo a boemia não existe entre filósofos, tudo se completa de modo a não reconhecermos mais a filosofia como inerentemente um saber gay. Só quando todos nós pudermos ver que o gay é o elemento comum e o hétero uma ficção e que então aceitaremos ver a filosofia, de volta, como sendo gay. Por enquanto esse saber é crivado por ideologia, porque nós próprios, cada um de nós que se diz hétero, nega tudo, até mesmo sonhos incontáveis.
Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/filosofia-e-gay/

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